«A Batalha das Três Tempestades, Parte 1»

Escrito por Jorge Cordeiro

 

 

Mar Norte de Rokugan

 

Shinju removeu o chapéu de palha e limpou a cabeça com um pedaço de pano. Estava calor. O seu pequeno barco sampan oscilava preguiçosamente ao sabor do mar. O caçador de pérolas deitou-se ao comprido no casco de bambú da sua embarcação, aproveitando a sombra graciosa que as suas velas vermelhas providenciavam. Sentia-se aturdido pela preguiça, invadido pela sonolência. Entreabriu os olhos, olhando para os finos raios de luz que eram filtrados pelas longas velas estriadas. Colocou o jingasa sobre a cabeça deitada, sorrindo ao ver que a luz voltava a passar pelos pequenos interstícios das tiras de palha. Passou pelas brasas, perdendo a noção do tempo.

Despertou, ao sentir que a ondulação estava mais agitada. Sentou-se no casco, atirando o chapéu para o lado, e espreguiçou-se. Custou-lhe a abrir os olhos, por culpa da intensa luminosidade reflectida pela água. O barco balançava cada vez mais, o que deixava Shinju intrigado, pois tudo estava calmo até onde a sua vista alcançava. Rodou a cabeça.

Um gigantesco navio, com a envergadura de um palácio, passou ao lado do pequeno sampan, agitando com força a pequena embarcação, e obrigando o pescador a segurar-se com força. O coração de Shinju palpitava, enquanto contemplava, estarrecido, o colosso marítimo, que era tudo, menos Rokuganês.

A bordo do navio, Moshi Hinome permanecia em silêncio, acompanhando o galgar das ondas pelo vaso de guerra do Marajá. Ao abrigo de um acordo protocolar entre a Senhora das Ilhas das Especiarias e o Marajá dos Reinos de Marfim, Hinome ia deixar o império para trás, enquanto um embaixador era recebido na casa de Yoritomo, para cimentar as boas relações entre os Mantis e os gaijins.

 Os olhos da shugenja não escondiam o descontentamento pelo seu destino, enquanto observavam os grotescos guardas do Marajá, de pele escura, que a escoltavam.

 

 

Costa Nordeste de Rokugan

 

A implacável armada Mantis cavalgava as ondas, sem piedade. Dezenas de navios  de guerra, carregados de soldados e shugenjas, em rota de colisão com o território Phoenix.

Yoritomo Naizen observava a orla costeira. Os Phoenix tinham erguido barreiras e ateado fogo às mesmas, na esperança de impedir a invasão naval.

Não teriam essa sorte.

A guerra já durava há vários meses. O facto de Naizen vir a comandar pessoalmente a armada, significava que o acto final se aproximava. A cortina estava prestes a cair.

Yoritomo Kiroto sentia a brisa a cortar-lhe o rosto. Contemplava as velas dos navios propelidas pelo vento favorável. Parecia que os próprios kamis do ar estavam do lado dos Mantis.

Abriu os braços, sentindo-se a flutuar sobre o mar. Fechou os olhos por um momento, sentindo apenas o vento e os salpicos do mar. Reabriu-os de seguida, dirigindo o olhar para a sua esquerda.

Lorde Kaigen.

Não havia margem para dúvidas: este era o ataque final! Kiroto endireitou-se, deslizando a mão pelo dorso do orochi que montava.

Yoritomo Kaigen exibia uma expressão sombria. A primeira vaga partiria do seu comando. Competia às suas criaturas quebrarem a primeira linha de defesa dos Phoenix, e abrir caminho para o desembarque da frota. O shugenja contemplou a pele escamosa do seu fiel Tsurayuki. Estava longe de ser um dos orochis mais poderosos, mas era sem sombra de dúvida o mais fiel, e aquele a quem as restantes criaturas pareciam mostrar uma espécie de respeito.

Kaigen ergueu uma mão, e Tsurayuki soltou um urro. De imediato, as criaturas e os seus ginetes aumentaram a velocidade de navegação para trinta e cinco nós, uma velocidade vertiginosa, que levava os corpos maciços das criaturas a erguerem vagas de água à sua passagem.

Os orochis passaram entre os navios, em grande velocidade, levando os marinheiros a soltarem exultantes gritos de festejo.

 

A cidade tinha sido evacuada ao longo da semana. As guarnições de soldados Shiba aguardavam o momento inevitável da colisão. O quadro que se pintava ante os seus olhos era aterrorizador. A simples visão da armada seria suficiente para lhes drenar o sangue das veias. Juntando isso às serpentes marinhas gigantes que avançavam para a costa a uma velocidade inconcebível, era possível ter uma ideia do que ia na alma dos soldados.

Shiba Yoshimi tinha o seu arco preparado, mantendo os olhos fixos na força demoníaca que se aproximava. Um samurai jamais temeria a marcha de um exército inimigo, por muito grande que este fosse. Mas era necessária toda a coragem e disciplina impostas pelo bushido para afastar o medo perante a avalanche inevitável.

Gerou-se alguma agitação nas fileiras Phoenix. Os ashigarus largaram as lanças e começaram a abandonar os seus postos, as suas faces estavam brancas de terror.

- Mantenham-se nos vossos lugares, cães sem mãe! Ou eu próprio vos mato antes sequer das criaturas chegarem à costa! - Yoshimi ergueu-se, puxando a corda do arco até ao limite.

- A minha vida pelos Phoenix! – o grito do yojimbo foi acompanhado pelos bushis da família. As flechas levantaram vôo.

Os orochis saltaram das águas, parecendo voar, e soltando guinchos agudos, que faziam vibrar cada músculo dos guerreiros do exército defensor. As criaturas projectaram os seus corpos colossais para cima das barreiras erguidas, extinguindo as chamas, e aumentado o fumo.

Uma das serpentes, Hyotaru, projectou-se sobre as falanges que disparavam contra si, esmagando guerreiros sob o peso das suas patas monstruosas, ao mesmo tempo que devorava algum infeliz que demorava mais tempo a fugir.

Era um confronto desumano, simples samurais, munidos de armas vulgares, contra uma força abissal, conjurada por demónios impiedosos.

- Disparem contra os controladores! Não desperdicem munições nas criaturas! – alguém berrava entre a confusão que se instalara.

Shiba Yoshimi voltou a disparar, fazendo pontaria a um dos ginetes das criaturas. Acertou no alvo, fazendo-o perder a concentração e o equilibrio. Atrás do yojimbo, alguém sibilou um conjunto de vocábulos arcanos. O homem que montava o orochi, sentiu um formigueiro percorrer-lhe o corpo, contorceu-se, e com um grito, tombou do cimo da criatura, indo ao encontro do chão com violência. O arqueiro Phoenix olhou por cima do ombro, vislumbrando uma mulher, envergando um kimono demasiado bonito para quem vinha para um campo de batalha.

Privado do seu controlador, Tamafune enfureceu-se. As criaturas, indomadas, tornavam-se perigosas, selvagens. O enorme orochi contorceu o corpo com veemência, chicoteando a área que o rodeava.

- Cuidado! – o grito de Isawa Tsune chegou tarde. A enorme cabeça da criatura atingiu Shiba Yoshimi, derrubando o guerreiro, e a si própria, varrendo-os sem contemplação.

O homem sentiu o corpo trucidado. A dor contrariava-lhe os movimentos. Observou a jovem shugenja inanimada ao seu lado, com um golpe na testa, a sangrar. Respirando fundo, procurou a espada, retirando-a da baínha. Ergueu-se, procurando a alma de Shiba no seu interior, para lhe trazer forças. Olhando ao redor, via a pequena aldeia completamente arrasada. Nem uma única edificação permanecia de pé para contar a história. As criaturas avançavam, imponentes, entre os escombros apinhados de samurais envergando armaduras rubras. O yojimbo focou a visão na criatura que o havia derrubado. Parecia incontrolável, guinchando e arrasando tudo o que lhe surgia pela frente. O guerreiro Shiba aproximou-se. Quando a criatura o vislumbrou, atacou de imediato. O yojimbo desviou-se, desferindo um golpe com a sua katana no pescoço da criatura. Tamafune soltou um urro animalesco, em protesto. A pele escamosa da serpente, em tons de verde-marinho, era agora tingida de vermelho.

 

Os navios não podiam avançar mais, correndo o risco de encalhar. O general Naizen percorria o campo de batalha com os olhos. As criaturas de Kaigen nunca falhavam.

- Comecem a desmbarcar as tropas! – a ordem foi seguida por um chilrreante deslizar de cordas que faziam descer os escaleres, que transportariam a infantaria até terra firme.

Mal o primeiro escaler tocou na água, Yoritomo Ietsuna lambeu a palma  da mão, passando-a pela cabeça desnudada. Soltou uma espécie de grunhido, e agarrando numa cimitarra com cada mão, saltou do convés do navio-mãe para o interior da pequena embarcação, berrando a plenos pulmões.

 

O orochi ergueu a cabeça, contemplando o seu indómito atacante. Três metros mais abaixo, Shiba Yoshimi segurava a katana com as duas mãos, fincando pé face a um adversário de proporções avassaladoras. Tamafune soltou um urro, e a sua cabeça mergulhou com violência em direcção ao samurai. Yoshimi desviou-se para a esquerda, enterrando a katana no olho da besta, não conseguindo evitar o impacto que o derrubou, esmagando-lhe a perna direita.

A serpente soltou um guincho grotesco, um misto de dor e raiva. Prostrado no chão, Yoshimi observava a criatura com a espada cravejada num dos olhos. Tamafune silenciou-se, e girou a cabeça.

O yojimbo Shiba sentiu o olhar do animal a avaliá-lo. Agora que contemplava o enorme olho amarelo da criatura, Yoshimi apercebia-se da inteligência que pulsava por detrás deste. Esta constatação aterrorizou o bushi mais do que qualquer visão de uma criatura de proporções épicas.

A última coisa que Shiba Yoshimi viu, foi a mandíbula do monstro a abrir-se na sua direcção. A última coisa que o guerreiro ouviu, foi o som das suas próprias costelas a estilhaçarem-se.

 

Vagas de soldados Mantis irromperam pela costa adentro, exterminando a escassa resistência Phoenix que ainda sobrara.

Yoritomo Naizen caminhou entre as cabanas destruídas e corpos dilacerados.

Montado em Tsurayuki, Kaigen aproximou-se do sumo-general Mantis.

- As vossas criaturas fizeram um trabalho magnífico, lorde Kaigen. Espero que a última esteja igualmente à altura...

- Podeis estar descansado, Naizen. Quando chegar a hora, ele cumprirá o seu papel.

O general anuiu com a cabeça, virando-se na direcção dos seus soldados.

- Agrupem os esquadrões. Marchamos para Shiro Shiba!

 

Afixada a 1.Junho.2006

 

CONTINUA




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