«A Batalha das Três Tempestades, Parte 2 »

Escrito por Jorge Cordeiro

 

 

Kyuden Isawa. Conselho Elementar Phoenix.

 

Doji Akiko e Isawa Ochiai entreolhavam-se em silêncio. Isawa Nakamuro e Isawa Sachi estavam há horas numa acesa troca de argumentos. A dada altura, as Mestras da água e do fogo simplesmente haviam decidido remeter-se ao silêncio. Akiko olhou para Shiba Ningen. O Mestre do Vazio permanecia de olhos fechados, em profunda introspecção...

Os passos ecoavam com violência pelas paredes do palácio. O guerreiro vinha a correr desenfreadamente.

- ABRAM OS PORTÕES!

As sentinelas que montavam guarda à câmara que alojava o Conselho Elementar olharam um para o outro, boquiabertos.

- ABRAM OS PORTÕES EM NOME DE SHIBA!

Perante a ordem do porta-voz do Conselho, as sentinelas aquiesceram.

Os enormes portões adornados da Câmara dos Cinco Mestres abriram-se de par em par. Para grande espanto dos Mestres, Shiba Yoma irrompeu pela câmara, ofegante, e dominado por um estranho frenesim. Tal atitude era deveras inusitada.

Yoma prostrou-se, inclinando a cabeça até estar a menos de um palmo do chão.

- Mestres... o Vosso perdão... trago novas que não podem esperar!

- Que se passa, Yoma? – Questionou Nakamuro, acompanhado pelo olhar inquisitivo de Sachi.

- Os exércitos Mantis foram avistados. Estão a menos de três dias de marcha de Kyuden Isawa!

- Como é isso possível? – Proferiu Ochiai, mais como exclamação do que em busca de uma resposta.

Akiko notou os olhos marejados do porta-voz. Yoma ergueu a cabeça, contemplando os Mestres.

- Sama... Shiro Shiba tombou... O General Naizen arrasou o castelo...

Nakamuro, Sachi, Akiko e Ochiai abriam a boca, em estupefacção.

Shiba Ningen abriu os olhos.

 

 

Um dia antes. Shiro Shiba.

 

- FOGO!

Uma avalanche de flechas percorreu os céus. As muralhas de Shiro Shiba estavam sob o fogo cerrado das fileiras Tsuruchi. Uma das torres estava em chamas. Um oceano em tom esverdeado propagava-se em frente ao castelo, com as suas “ondas” cuidadosamente ordenadas. As unidades estavam bem identificadas, com as enormes nobori que dançavam ao vento, quais velas de navio hasteadas.

A infantaria de defesa Shiba ia cedendo aos poucos, ante a fúria de salvas dos arqueiros Mantis, apoiadas pela estranha magia que invocava trovoadas onde estas não existiam. Os corpos dos soldados amontoavam-se nas muralhas.

A armadura escarlate de Shiba Naoya sobressaía entre as tropas que defendiam o castelo. Naoya segurava na mão a sua katana, embainhada numa exuberante saya vermelha. O general exibia uma expressão soturna. Não podia falhar. Muito menos na ausência do seu irmão. Mas o que podia fazer? Os arqueiros de Naizen pareciam alimentados pelos próprios fogos de Jigoku. Observou mais um bushi a cair da muralha, com uma flecha ainda em chamas cravejada no pescoço. Quase em simultâneo, o general Phoenix ouviu um som gutural a elevar-se do campo de batalha. Os seus olhos expandiram-se, incrédulos.

No seio do exército Mantis, um homem possante, em tronco nu, de pele curtida pelo sol, soprava num estranho sakuhachi que mais parecia ser um búzio gigante do que uma trompa.

Duas criaturas que só podiam ter saído de um pesadelo do Senhor das Trevas avançaram entre as fileiras de soldados Mantis. Duas gigantescas criaturas serpentiformes moviam-se pesadamente em direcção ao castelo. Shiba Naoya observava à distância, sem reacção.

Yoritomo Naizen sorria. O assalto estava a correr na perfeição. Rápido, eficaz, e com poucas baixas. Tal como pretendido. Olhou para Moshi Hitaka, acomodado no dorso de Hisaki, a monumental criatura em tom azul-arroxeado. Kaigen havia-lhe confidenciado que Hisaki era o líder dos orochis. Nem mesmo Kaigen sabia explicar porquê, mas era visível o carisma da besta. Somente Hitaka havia conseguido domar a criatura, conquistando a honra de ser o seu ginete. De certa forma, Hitaka era como Hisaki... Embora tivesse nascido Moshi, possuía uma vocação para o campo de batalha que muitos Yoritomo desejavam ter. Era visível o êxtase de Hitaka no comando do orochi.

Ao lado de Hisaki deslocava-se uma criatura que até o próprio Naizen deixava cismado. O segundo orochi caminhava desajeitadamente. O seu tamanho era digno de uma epopeia. Era seguramente maior que muitos dos santuários que povoavam as terras Phoenix. Era o dobro de Hisaki. As suas escamas eram opacas, ao contrário do que era comum nas restantes criaturas. Deslocava-se sozinho, desprovido de montador.

- Kensaku... – murmurava sensei Kaigen, posicionado na retaguarda.

As criaturas caminhavam lado a lado, sob o olhar atemorizado de muitos guerreiros. Os guinchos que soltavam eram ensurdecedores. A besta de proporções míticas parecia deambular pelo campo de batalha, agitando a sua cabeça, enquanto bramia com violência, como que protestando aos quatro ventos. Mais à frente, Hisaki parecia comandar Kensaku, guinchando na sua direcção, e levando o colosso a progredir em direcção às paredes do castelo.

Os arqueiros Shiba olhavam, estarrecidos. As serpentes aproximavam-se vagarosamente, cobertas pelo fogo cerrado das fileiras Tsuruchi. Shiba Takeishi não dava descanso ao seu yumi, disparando incessantemente, aguardando que as criaturas se aproximassem, para então despejar a sua alijava nas mesmas.

Aos poucos, os dois orochis aproximaram-se da muralha frontal. Kensaku parecia urrar em protesto para com os homenzinhos que disparavam flechas ao seu redor. Parecia tomar atenção a tudo, menos às muralhas do castelo. Hisaki quase que se encostou ao irmão, erguendo a cabeça e guinchando-lhe com eloquência. O colosso ergueu-se e abriu a mandíbula, soltando um silvo rouco e irado, como um felídeo assanhado. As criaturas encararam-se, como que desafiando-se mutuamente.

Naizen alarmou-se. Por momentos receou que os animais se virassem um contra o outro, e deitassem por terra o seu plano. Mas logo de seguida, compreendeu o fenómeno extraordinário que estava a ocorrer. As duas criaturas estavam a travar um duelo, quais samurais enfrentando-se gloriosamente. Um duelo kármico entre dois animais partilhando um vínculo. O general Yoritomo deslumbrou-se.

Kensaku baixou a cabeça, subjugado, ciciando com estertor. Pesadamente deu alguns passos em direcção à muralha, aproximando-se para uma distância ameaçadora, da perspectiva do exército defensor.

Shiba Naoya correu pelo patamar superior do castelo, apercebendo-se tardiamente da tempestade que estava prestes a abater-se sobre si...

- Concentrem todo o fogo na besta! Não o deixem aproximar-se da muralha! FAÇAM-NO TOMBAR EM NOME DE SHIBA!

Kensaku começou a mover-se a uma velocidade bastante superior, propagando as ondas de choque provocadas pela sua marcha. A legião Tsuruchi cessou o fogo por momentos, parando para contemplar a investida majestosa.

O tempo pareceu parar repentinamente, por alguns momentos. Apenas o suficiente para um simples batimento cardíaco, o qual iria mudar para sempre a face da terra ancestral da família Shiba.

A criatura titânica projectou o seu corpo contra a fronteira do Lar Eterno de Shiba, como a cabeça maciça de um martelo que encontra a bigorna. A muralha ressentiu-se. Uma vaga de ashigarus caiu da muralha, alguns morrendo ao tocar o solo, outros ficando inconscientes.

Era visível o choque estampado nos rostos da Guarda de Honra Shiba.

Um grito de celebração ondulou pelas fileiras Mantis, que aproveitaram a desorientação Shiba para os brindar com nova salva de flechas.

As patas monumentais do animal recuaram, criando margem para novo assalto enquanto recuperava fôlego. Kensaku ergueu a cabeça aos céus, desta feita rugindo. Mais atrás, junto a Hisaki, Yoritomo Kaigen encontrava-se de braços estendidos na direcção do orochi, entoando um cântico.

O Comandante Naoya arrancou uma lança das mãos de um entorpecido soldado de elite, correndo sobre os telhados dos pátios interiores e saltando para a muralha.

- Não o deixem fazer segunda investida! – Em pleno salto, Naoya esticou os músculos até ao limite, projectando a lança com toda a força para o orochi.

Kensaku gritou, furioso, quando a lança se lhe cravejou no dorso. As patas grotescas da criatura voltaram a fazer o chão trovejar. Avançou, imperial, para a muralha.

Do topo da muralha, Shiba Naoya olhou em frente, vislumbrando a investida possante e imparável do orochi, sabendo que nada mais havia a fazer. A colisão foi ensurdecedora. As fundações do castelo gemeram. A muralha cedeu, desmoronando ao mesmo tempo que abraçava, e engolia, o corpo da besta. Dezenas de guerreiros foram soterrados pela avalanche provocada pelo arremesso de Kensaku.

Ante a agonia dos Shiba, o grito vitorioso dos Yoritomo e dos Tsuruchi soerguia-se.

Hisaki aproximou-se do rombo imposto à fortificação. No seu dorso, além de Moshi Hitaka acomodava-se agora outro homem. Tsuruchi Etsui.

Enquanto Kensaku se debatia entre a pilha de escombros, tentando-se reerguer, Etsui preparou o seu daikyu, esticando a corda até ao ponto máximo de tensão. O arqueiro-mestre colocou uma única flecha, toda de metal, entre os dedos. Sustendo a respiração, disparou, descrevendo um arco sobre o ponto de impacto do orochi.

Enquanto a flecha de Etsui cortava os céus sobre Shiro Shiba, na retaguarda da batalha, junto a Naizen, a daimyo da família Moshi invocava Osano-Wo.

- Mestre solene do poder do trovão, escutai, agora, que a vossa progenitura vos invoca, e atendei as nossas preces! – Os olhos de Moshi Amika faiscaram, e algo ribombou nos céus.

No local onde a flecha de Etsui repousara, um violento relâmpago impôs-se, varrendo o vestíbulo dos estábulos e incinerando sem complacência tudo ao seu redor.

Shiba Takeishi abriu os olhos. Sentia dores no peito. Cuspiu sangue e terra, acumulados nos lábios. Tentou erguer-se, a custo. Via as chamas a alastrarem rapidamente. Nos estábulos, os cavalos encurralados choravam, toldados pelo pânico. Takeishi tossiu. O caos reinava ao seu redor, com blocos de pedra espalhados pelo chão, alguns tingidos de vermelho.

- Abram as celas! Abram as celas dos estábulos! Ajudem os animais a fugir! – Takeishi cambaleava, segurando o braço esquerdo, trôpego.

Uma nuvem de fumo negro elevava-se no interior de Shiro Shiba, com as chamas a galgarem em direcção aos telhados. Grupos de serventes corriam, desordenados, acartando baldes de água. Entre eles, Asako Meisuru invocava o poder das kami da água para atenuar as chamas, cobrindo a fuga dos cavalos.

Takeishi parou, observando os animais a galoparem descoordenadamente pelo recinto. O samurai olhou ao redor. A voragem das chamas engolfava o palácio. Homens e animais entrelaçavam-se num surto de entropia. Ao centro, a shugenja Asako assemelhava-se a uma divindade, bailando numa parafernália de vermelho e dourado, com explosões de água a dançarem ao seu redor.

Shiba Takeishi caminhou lentamente até aos escombros que anunciavam o tremendo rombo na muralha, vendo através deste a retirada célere dos exércitos Mantis. Os olhos do Shiba centraram-se nos destroços, e numa saya vermelha, perdida entre estes, cuja katana não chegara a ser desembainhada.

Enquanto os seus esquadrões se retiravam ordenadamente do teatro do conflito, Yoritomo Naizen contemplava as chamas que consumiam o Lar Eterno de Shiba.

- Há quem diga que a Fénix renasce das cinzas... Veremos se o tempo assim o vai provar! – O general virou costas ao castelo ardente – Organizem os esquadrões. Só paramos em Kyuden Isawa!

 

Afixada a 14.Junho.2006

 

CONTINUA

 

 




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