«Em
Nome de Shiba, Parte 1»
Escrito por Jorge Cordeiro
Mirabu entre cerrou os olhos, fustigados
pelo reflexo da luz do sol no mar. A aurora anunciava-se, com um manto de luz
que languidamente se extendia como que abraçando as ondas. A maré estava baixa.
A ondulação... terrivelmente serena. Pequenas ondas aventuravam-se galgando os
seixos, apenas para serem de imediato reclamadas pelo mar. O campeão Phoenix fechou
os olhos por completo, e inspirou o ar carregado de maresia, tentando
concentrar-se somente no som da água a rebentar ao de leve. Rodou a cabeça para
a direita, pousando o olhar nos doze mil guerreiros sob o seu comando que
estavam dispostos ao longo da praia. À distância, o exército invasor
aproximava-se.
O campeão sentia os olhos dos seus subalternos
pousados em si, questionando-o. Olhou as paredes do palácio. Sabia as dúvidas
que assolavam as suas tropas. Por que razão havia sido montada a defesa no
exterior do castelo, e não no interior das muralhas? Assim ditava a lógica
militar, e segundo o relatório preliminar que Mirabu havia recebido, tinha sido
isso que o seu irmão fizera em Shiro Shiba... O castelo caíra em menos de dois
dias. E por esta hora, o corpo de Naoya poderia jazer por baixo dos escombros.
Afastou esses pensamentos. A estratégia era boa. Quando chegasse a hora de
desembainhar as espadas, teriam a vantagem do terreno. Os exércitos de Naizen ver-se-ão
forçados a atravessar o extenso areal até chegarem à linha defensiva. E quando
o fizerem, estarão extenuados. No entanto, Nakamuro-sama ainda julgava ser
possível impedir a batalha. O olhar do comandante dirigiu-se ao Conselho
Elementar Phoenix, sitiado mais atrás.
No extremo oposto, o exército Mantis cessara
a marcha. Yoritomo Naizen dirigia-se ao ponto central, equidistante de ambas as
frentes. Um pouco mais atrás de si, o seu porta-estandarte. Era uma questão de
cortesia, os comandantes saudarem-se, e Naizen sabia que os Phoenix tentariam
negociar a paz. Tentativa que sairia lograda de antemão.
Do lado Phoenix duas figuras aproximaram-se.
Uma deles era Shiba Mirabu, comandante supremo do exército Phoenix. Quem o
acompanhava, era para Naizen uma surpresa, uma vez que sempre esperou que fosse
Isawa Nakamuro.
- General Mirabu... Mestre Ningen... - os
generalíssimos trocaram uma cordial vénia, sendo as conversações iniciadas por
Shiba Mirabu.
- General Naizen... não há necessidade de
ser derramado sangue no território ancestral Isawa, como vós bem sabeis os
Isawa são um povo pacífico, em nada lhes interessa a guerra, e pretendem
encontrar uma solução pacífica para esta contenda.
- E então para isso... enviaram dois
Shiba... – foi a resposta do Mantis, seguida de um sorriso cínico.
À distância, os Mestres observavam. Nakamuro
estava tenso, nunca lhe passara pela cabeça que fosse possível o conflito
chegar tão perto do palácio Isawa. Ao seu lado, uma esbelta jovem shugenja
interpelou-o.
- Mestre... algo está a deixar-me curiosa.
Sabendo que não é o meu lugar levantar questões quanto às Vossas decisões... intriga-me
a intenção de ser Mestre Ningen, e não vós mesmo, a abordar o general inimigo.
Nakamuro olhou de relance para a sua irmã,
Ochiai, antes de responder a Agasha Miyoshi.
- Miyoshi-san, a vossa questão é pertinente.
Teria toda a lógica eu estar no lugar de Ningen. Mas Ningen pressente que os
Mantis não vão ceder, e estão sequiosos por um confronto, e temendo uma cilada
destes, achou melhor eu ficar na retaguarda, caso haja um ataque à traição,
pois todos sabemos, que a haver tal coisa, como será...
Miyoshi abriu os olhos, apercebendo-se subitamente
do raciocínio. – Uma salva de arqueiros vindo pelo ar!
Nakamuro anuiu levemente.
- Se tal acontecer, eu sou a única coisa que
se interpõe entre isso e a derrota iminente das nossas forças. Não obstante,
ficai ciente que Ningen só tomou o meu lugar com forte contestação da minha
parte... – os olhos do Mestre focaram-se na conversa que decorria à distância,
e da qual resultaria o futuro de dois Grandes Clãs.
- Retirem os vossos exércitos destas terras,
e estou certo que poderemos chegar a um compromisso que honre ambas as partes.
– Era visível o esforço de contenção que Mirabu estava a fazer, perante o
cinismo do adversário.
- Mas essa é precisamente a questão que me
traz aqui, Mirabu-san... “um compromisso
de honra”. Foi o vosso clã que difamou o meu, nada mais estamos a fazer a que
lavar a nossa honra... com o vosso sangue! – O líder Mantis ostentava um olhar
hostil.
- Já haveis arrasado o Lar Eterno de
Shiba... que mais quereis? - O Mestre do Vazio entrou abruptamente na discussão
- Prolongais esta guerra há meses, mergulhaste estas terras num banho de
sangue, sabendo a índole pacifista deste clã... Já chega!
- Quero o clã Phoenix de joelhos perante
mim! Quero respeito! Quero mostrar que ao contrário do que os vossos jogos
políticos tentam alcançar, a casa de Yoritomo é uma igual entre vós.
- Ordenai às vossas tropas que abandonem o
nosso território, e evitai que este negro capítulo chegue alguma vez a ser
escrito na História dos nossos clãs! - Ningen parecia estar a perder a sua
calma característica.
- Não! – Foi a única resposta, seca e
prolongada, que saiu dos lábios de Naizen.
Shiba Ningen retorceu o lábio superior. –
Sois um louco... tamanha cobiça repugna-me! - Os olhos do Mestre do Vazio
ficaram subitamente dominados por uma estranha aura negra - A vossa ambição
torna-vos cego...
Yoritomo Naizen sentiu um súbito frio lancinante
a invadir-lhe o corpo. Repentinamente, tudo começou a ficar turvo ao seu redor.
Levou a mão à face.
- Que se passa? Que tipo de traição é esta?
- De um momento para o outro, Naizen viu-se privado da sua visão, ante o olhar
incrédulo de Shiba Mirabu.
- Que me estão a fazer? Malditos! Lutem como
homens e não como chacais! – Descontrolado, numa fúria cega, Naizen sacou da
katana com um movimento rápido e fluido, e esquartejou o ar. Foi tamanha a
raiva impressa no movimento, que abriu um golpe no ventre de Ningen, desde a
cintura ao ombro.
- NÃO! – Gritou Mirabu em frustração, tarde
de mais. Correu a amparar Ningen com um braço, enquanto este se esvaía em
sangue, ao mesmo tempo que desembainhava a wakizashi, golpeando Naizen no
ventre.
- NINGEN-SAMA! – O grito desesperado de
Agasha Miyoshi propagou-se por toda a região costeira.
Na vanguarda do exército Mantis, Tsuruchi
Shunso erguia o tessen. - Algo se
passa! Traição! Naizen-sama foi atacado! CARGA! - Com um simples movimento do
leque, um grito de guerra percorreu as legiões Mantis.
Em choque, Mirabu tentava segurar o Mestre
do Vazio, enquanto, estarrecido, vislumbrava o kimono deste a ensopar-se num
mar de sangue. O campeão Phoenix olhou em direcção aos seus exércitos,
brandindo com veemência a wakizashi, erguida bem alto, em desespero. E então,
na fracção de segundo que dura um piscar de olhos, começou. Como se um dique
tivesse rebentado ante a pressão da água, os exércitos extravasaram.
Isawa Nakamuro tinha perante si a aterradora
visão de doze milhares de soldados a correrem ao encontro de um exército
invasor.
- Parem! Isto não pode estar a acontecer! Este
não é o caminho dos Isawa!
- Então, sama, com Vossa permissão, deixai
os Shiba e os Agasha resolver esta batalha! – E com estas palavras, Agasha
Miyoshi juntou-se à avalanche.
O coração de Nakamuro batia mais
violentamente do que em qualquer outro momento da sua já experiente vida.
- Nii-san! Faz alguma coisa! – Isawa Ochiai
estava lívida, apavorada.
O mais alto dignitário do clã Phoenix
contemplou as duas forças colossais prestes a embaterem. Estava impotente.
Procurava uma resposta. Algures entre as legiões, vislumbrou Isawa Sachi, a
correr ao lado destas. Num momento decisivo, Nakamuro invocou o poder dos
ventos, e lançou-se no ar.
O som do oceano viu-se subjugado pelo troar magnânimo
da marcha de milhares de samurais. De um lado, corria a força indomável da
ambição, movida pela defesa da honra do clã; do outro, corria a força indómita
de quem luta para defender o que é seu, quando confrontado com um ímpeto
destruidor.
Nakamuro sobrevoou as legiões Phoenix, vendo
o embate dos exércitos a escassos segundos de distância. Aproximou-se de Isawa
Sachi, Mestre da Terra.
- SACHI!
- Ao menos uma vez na vida, rapaz, abre os
olhos! Nem com a força dos cinco elementos conseguirias impedir dois exércitos
predestinados a enfrentarem-se. É chegada a hora de escolher: os nossos
soldados, ou os deles! O terreno é desfavorável, temos de virar isso a nosso
favor! – E sem mais dizer, Sachi agachou-se, dando um murro no solo, levando a
que um mar de areia se soerguesse.
Nakamuro entendeu. Apelando aos kamis do
vento, projectou uma vaga impelindo o exército Phoenix, ao mesmo tempo que uma
tempestade de areia lhes proporcionava sustentação.
Shiba Mirabu via-se na situação mais
sufocante da sua vida. Estava de joelhos, com um homem moribundo nos braços, e
de cada lado, um exército em carga. O Campeão notou o Sol refulgente nas
armaduras Shiba, enquanto estas eram engolfadas por uma tempestade de areia.
Protegeu Ningen com o corpo, e fechou os olhos.
À cabeça do exército da Filha das Tempestades,
Tsuruchi Shunso conseguiu antever a vaga de areia a aproximar-se.
- Mudem para posicionamento em cunha
invertida! Divisão em duas frentes para flanqueamento! FORMAÇÃO DE KAIMETSU-UO!
– o exército Mantis abriu-se em dois, movido por uma
fluidez impressionante.
Do lado oposto, Shiba Shinsaku sentia o
poder combinado da Terra e do Ar a fluir ao seu redor. De katana desembainhada
e a clamar por sangue, o yojimbo bradava aos Sete Céus. - A minha vida, a minha
alma pelos Phoenix! Pela glória dos que tombaram no Lar Eterno! EM NOME DE
SHIBA!
A colisão dos dois exércitos foi tal, que teria
sido suficiente para arrancar a Montanha Mirumoto das suas fundações. Katanas,
wakizashis e kamas entrechocaram-se. O poder dos cinco elementos balançou para
ambos os lados.
Agasha Miyoshi abeirou-se de Shiba Ningen.
Soluçando, colocou as mãos sobre o peito ensanguentado do Mestre, rogando aos
kamis que lhe dessem força para mitigar a ferida aberta. Mais dois shugenjas se
aproximaram do Mestre.
Mirabu desembainhou a Espada Celestial
Phoenix. - Tratem dele... eu
tenho uma batalha para ganhar.
Ningen gemeu, abrindo os olhos a custo.
- Sama? Como foi possível? Como aconteceu
tal coisa? – Miyoshi estava claramente transtornada, visivelmente autista em
relação à violenta batalha que se desenrolava ao seu redor.
O Mestre do Vazio sorriu. – Miyoshi... olha
para os nossos soldados... vê como eles lutam, agora, por algo que é seu. Eles
só precisavam de um motivo... um pequeno incentivo. Os Mantis nunca baixariam
os braços... por muito que tentássemos...
- Sama... isso é loucura! - A Agasha estava
atónita.
Ningen sorriu. - Não te esqueças de uma
coisa, Miyoshi... se chegar a esse ponto... temos um amigo em Gisei Toshi que
pode vir em nosso auxílio!
O olhar da shugenja ficou apavorado.
À distância, a esposa de Doji Kurohito
observava o confronto, perdida nos seus próprios pensamentos. Ao seu lado,
Isawa Ochiai continuava sem reacção.
- ALERTA! Invasão naval iminente! – Um bushi
da Guarda de Honra Isawa apontava em direcção ao mar, onde era visível a
aproximação das terríveis criaturas de Lorde Kaigen.
Doji Akiko observou os orochis cavalgando as
ondas. Dirigiu-se à beira-mar, arrastando Ochiai por um braço.
- Akiko! O que estás a fazer?
A Mestra da Água não respondeu, limitando-se
a arrastar a assustada Mestra do Fogo atrás de si. Akiko entrou na água,
avançando até o mar lhe cobrir as coxas, sempre em silêncio.
- Sama! Afaste-se da água! Esse é o domínio
das criaturas! – Gritou um dos elementos da Guarda de Honra.
Akiko concentrou-se no horizonte.
- Errado, bushi... É o meu!
Afixada a 30.Junho.2006
CONTINUA